Da ideia à App Store: você realmente precisa de um app?
Como parti de um problema real, defini o MVP do Volei+ e transformei a experiência das peladas em um produto publicado.
Eu sempre tive vontade de criar um app que fosse meu. Depois de vários anos construindo e mantendo produtos de grandes empresas, fazer meu próprio app parecia o próximo passo natural. O problema era: que app fazer?
O conhecimento técnico me dava condições de construir uma solução, mas não respondia qual problema valia a pena resolver. Ainda assim, comecei pelo caminho mais tentador para um desenvolvedor: pensei primeiro no app, em seu formato e nas funcionalidades que poderia implementar. As ideias se multiplicavam, mas nenhuma delas partia de uma necessidade bem definida.
Hoje vejo que o processo começou ao contrário. Se você também é desenvolvedor e quer criar um produto próprio, esta série apresenta os erros, as decisões e os aprendizados que me levaram da ideia ao lançamento do Volei+. Este é o primeiro de três artigos e trata da etapa que vem antes do código: encontrar um problema real e definir o que precisa entrar na primeira versão.
O problema apareceu longe do código
Muitos meses depois de ter a ideia de criar meu próprio app, eu estava com outro foco e tocando minha vida. Comecei a jogar vôlei de praia e fiquei muito empolgado com isso. O esporte se tornou o ponto central do meu tempo offline: comecei fazendo apenas duas aulas por semana e, quando me dei conta, já estava jogando todos os dias, fossem peladas ou aulas.
Nesse processo de ficar viciado em vôlei, comecei a perceber uma dificuldade importante durante as peladas: como decidir os times de forma que fiquem equilibrados e sejam bem distribuídos para que todos possam jogar juntos?
Foi aí que comecei a procurar, na App Store, uma solução para sortear times equilibrados. Encontrei principalmente opções voltadas para futebol e não achei um app específico para vôlei que combinasse uma boa interface com simplicidade de uso. Naquela frustração, reconheci a oportunidade que procurava para retomar meu projeto.
Validar antes de construir
Eu tinha encontrado um problema porque lidava com ele quase todos os dias. Mas vivenciar uma dificuldade não era suficiente para concluir que outras pessoas precisavam da solução. Antes de definir o MVP, o produto mínimo viável que eu poderia testar com o público, conversei com aproximadamente seis colegas que administravam uma pelada com mais de 70 membros.
Essas conversas confirmaram que três necessidades apareciam em todas as peladas: avaliar os jogadores, distribuir times equilibrados e acompanhar a pontuação. Além de recorrentes, eram problemas que poderiam ser atendidos com funcionalidades de implementação relativamente simples. Essa combinação de frequência, valor para o usuário e esforço técnico orientou o escopo da primeira versão.
Definir o MVP também exigiu decidir o que não construir. Considerei permitir que usuários encontrassem peladas na região, coletar avaliações dos jogadores após cada partida, criar critérios complexos baseados em habilidades específicas e integrar o app ao Apple Watch para acompanhar os pontos em tempo real. Todas eram possibilidades interessantes, mas aumentariam o escopo sem serem necessárias para validar a proposta central.
O processo de ideação nunca, ou quase nunca, é direto. Pensei em muitas funcionalidades durante o caminho, mas precisei conter a tentação de implementá-las. Para chegar mais rápido ao público, mantive o foco no menor conjunto capaz de resolver o problema confirmado nas conversas.
Do contexto de uso às decisões técnicas
Com as funcionalidades definidas, precisei transformar o escopo em uma experiência adequada ao contexto de uso. Nesse momento, é importante se tornar um microespecialista no problema: observar não apenas o que o usuário precisa fazer, mas onde, quando e em quais condições ele fará isso.
Areia, suor e agitação faziam parte desse contexto. O Volei+ seria usado numa arena de vôlei de praia, possivelmente com uma conexão ruim, em meio à gritaria e às dúvidas sobre os times. A interface precisava responder rapidamente às perguntas que mantêm o jogo em andamento: quais são os times? Quem joga agora? Quem venceu e por quanto no último jogo?
Essas condições orientaram decisões concretas de produto e engenharia:
- Funcionamento sem internet: o app deveria manter os dados armazenados localmente;
- Poucas interações: cada tela deveria reduzir o tempo gasto com o celular durante a pelada;
- Equilíbrio dos times: os algoritmos precisavam transformar as avaliações dos jogadores em times mais bem distribuídos;
- Compartilhamento rápido: o resultado do sorteio deveria ser fácil de enviar antes mesmo de a pelada começar.
O botão de compartilhamento, por exemplo, permitiu enviar os times ao grupo de WhatsApp e começar a inevitável discussão sobre eles estarem desequilibrados, como sempre 😂. Mais do que detalhes de interface, essas escolhas conectaram as limitações do ambiente à implementação do produto.
O lançamento também faz parte da validação
O Volei+ chegou à App Store e ultrapassou o grupo no qual o problema foi identificado. Hoje, o app tem mais de 170 usuários registrados e 40 assinantes.
Esses resultados não encerram o processo de validação, mas mostram que a necessidade existia além da minha experiência pessoal. A primeira versão não precisou reunir todas as ideias que tive; precisou resolver bem um problema frequente para um grupo específico.
Comece pelo problema, não pelo código
Para quem desenvolve software, começar pelo código é especialmente tentador. Mas conhecimento técnico não substitui a compreensão do problema. Antes de abrir o projeto, vale responder a três perguntas: essa dificuldade acontece com frequência? Outras pessoas também se importam com ela? Qual é a menor experiência capaz de entregar valor e testar a ideia?
Nem todo problema precisa de um app. Às vezes, uma automação ou uma mudança de processo é uma solução mais adequada. Quando um produto faz sentido, porém, começar pelo problema ajuda a construir menos, aprender mais cedo e usar a engenharia onde ela realmente gera valor.
Na próxima parte, vou mostrar como transformei esse escopo nas decisões técnicas do Volei+.
Se você está criando um produto e precisa transformar uma ideia em um escopo claro e um caminho técnico viável, conte-me sobre o seu projeto. Posso ajudar a identificar os riscos, definir a primeira versão e decidir quais escolhas técnicas merecem prioridade.
